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24.01.2008 - Nº. 9 - POR QUE FIZEMOS AMOR PARA DEPOIS ESTRAGAR...

------À procura na Internet de elementos biográficos sobre o doutor Constantino Theodor Sakellarides, personalidade que esteve no programa «Prós e Contras» que abordou a «Lei do Tabaco» e que Mário Assis Ferreira por estulta alusão indirecta equiparou a algo de «menglico-SS», deparou-se-me a seguinte excelência de texto:
------«Nasci em Lourenço Marques (agora Maputo). O meu pai nasceu no Norte da Grécia. Emigrou com a família para África ainda era criança; a minha mãe nasceu no Cairo, também de origem grega. Deles recebi, para além de uma infância relativamente despreocupada e dos afectos que me fazem recordar com prazer esse desafogo, conhecimentos e gostos próprios da sua cultura - a língua, os sabores, laços familiares dispersos e distantes - fragmentos de reminiscências de outros tempos e lugares, destinados a ligar com algum sentido o presente ao passado. Daí vieram também as histórias da emigração, premiando tudo o que fosse esforço para superar as limitações das origens e justificar os sacrifícios do exílio, assim como alguma disposição para aceitar com alguma naturalidade os desafios de novos ambientes e circunstâncias. (...)
------No decorrer dos anos, voltei, por vezes, a olhar, com mais distanciamento, para o que era a vida em Moçambique nos anos 50 do século passado (...). Foi como se aquela ilha de algum desafogo e inocência em que crescemos, nos tivesse emprestado um pequeno capital de utopia e encantamento em relação à vida e ao futuro, porventura próprio daqueles que um dia, nos primeiros anos, puderam sonhar sem ameaças e fantasiar sem sofrimento. = Constantino Theodor Sakellarides - CV, 2004 - Posted by Causa Nossa».


------Bom, interpreto que o doutor Sakellarides, ao escrever «Foi como se aquela ilha...», se refere à Ilha de Moçambique e, em magnífica súmula, termina: «puderam sonhar sem ameaças e fantasiar sem sofrimento».
------Esta leitura move-me o raciocínio 37 anos atrás para recordar que minhas filhas Paula e Cristina nasceram em Moçambique, respectivamente em Cabora-Bassa (1971) e na Ilha (1974). Entre Julho de 1968 e Abril de 1974, posso e devo testemunhar que as cidades da Beira e de Lourenço Marques eram duas aprazíveis metrópoles mais do que dignas do seu título e evidentes demonstrações da cidade ideal para qualquer indivíduo viver. Tete e Nampula eram dois oásis e a Ilha de Moçambique configurava um autêntico paraíso. Europeus estabelecidos e a maioria dos autoctónes, ainda que separados pela condição existencial, viviam em humanista, harmonioso e saudável processo integrativo. O resto, oh, o resto é deprimente propaganda insidiosa que apenas convém aos responsáveis pela tragédia que ocorreu e ainda continua a decorrer.
------Em meados de 1987, logo que tomei conhecimento e tive a certeza absoluta sobre o degradante estado que assolava de lés a lés aquela ex-província portuguesa, em desabafo de alma, escrevi:

Moçambique, meu amor,
grito africano sem-fim
que trago dentro de mim
para senti-lo melhor...
Moçambique além da dor
quando soubermos contar
por que fizemos amor
para depois estragar!...

------Em 2008, como tão-só o tempo haverá de solucionar a grave situação do povo moçambicano, em face das notícias que divulgam a catástrofe inundante do centro do país, apenas me interrogo com uma delicadíssima questão: como é que se terá operado em Cabora-Bassa?

25.01.2008 - Nº. 10 =AS PARTES IDENTIFICAM-SE NATURALMENTE...

------Nasci em 1939 e atravessei o tempo como qualquer outro indivíduo que de mais perto ou de mais longe está defronte ao dealbar do ano 2008. Até me aproximar dos 60 anos de existência sequer me debrucei sobre os profundos motivos que levaram pessoas como Camilo ou Hemingway a meterem um tiro na cabeça e Florbela Espanca a suicidar-se por envenenamento. Só muito tarde absorvi, e que privilégio acidental foi, a essência plena condensada no corriqueiro desabafo «é a vida!», sapiente fórmula expressiva que significa saudável conformação com as inevitáveis vicissitudes que o estar-se vivo implica.
------Hoje, sinto-me repulsivo ao desejo que se manifesta na cantiga «ai quem me dera ter outra vez vinte anos». Considero-me sim incorporado no idêntico derradeiro percurso de António Ramos Rosa e Herberto Helder, retirados quanto possível da amálgama existencial que desenfreada campeia, corruptora, devassante, sem destino a lugar algum no crucial domínio do espírito que consegue satisfazer-se harmoniosamente com o inexorabilidade terminal.
------A lástima moral que se me depara, pejada de grotesca ignorância e insidiosa maldade estupidificante, algo de espertozóidismo que em avidez extrema procura encafuar-se não sei aonde, confrange-me e faz-me doer alma sobre o que me resta de físico e amo espontaneamente: o meu país. Agradeço às vezes à náusea que me toma e até me arrependo de atacar quem submete a espamódica hidra-populis seja de que forma for.
------Por mim, use-se pois a liberdade consoante apraza, no caso a de expressão. Em maioria, trata-se de mediocridade oriunda de baixíssima e aviltante condição, e essa, felizmente, só se sustenta para dar permanente cabo de si mesma e diluir-se sem história entre as ruínas do pulhedo, execrável e covardemente anónima.

26.01.2008 - Nº. 11 = A MINHA CATEDRAL RELIGIOSA

------Colocando-me assaz abaixo do ínfimo degrau que em raciocínio Galileu pisou, considero que a minha catedral religiosa é paradigma da que Moisés, diz-se, escolheu para meditar duranre 40 dias: a montanha, mas minha, exclusivamente minha e para matutar um pouco todos os dias, que pode aprazivelmente ser defronte ao mar ou até num exíguo qualquer lugar isolado. Só que, o que de íntima religiosidade for comigo, não é com mais ninguém, seja com quem ou para quem for. O tempo avante é cada vez mais um compressivo demolidor de vontades e como nada em absoluto se perde tudo tem pois de inexoravelmente modificar-se, e pasme-se, na mesma coisa.
------«Não faças a outrem o que não queres que te façam», como mensagem, chega e sobra amplamente para intuir o espírito de razoável conduta física. O resto, os dez mandamentos (o tremendo lapso bem intencionado de Moisés), bem, todo o resto que incha e se propaga na diversidade é que abre as nefandas frestas que acabam por colocar de pantanas a porta do edifício da dignidade natural de ser-se pessoa em relação à existência colectiva.
------Os líderes religiosos, todos sem excepção, sob a evocação sincera ou não de inventados deuses, são tão-só os arautos, conscientes ou inconscientes, da permanente carnificina e miséria que perpassa pelos povos. O espírito humano individual é uma indefinida galáxia que naturalmente só admite submissão a si mesmo, e é apenas por aqui o caminho que vai dar à clareira da harmonização global. A política, enquanto não eliminar, impedindo-os de agir lateralmente, os presumidos salvadores de almas em parasitária sustentabilidade, jamais conseguirá a pacificação razoável da humanidade. A ideia de salvar espiritualmente outrem é apenas um ímpeto de auto-salvação. O miserabilismo salva-se a expandir a miséria.
------Em suma, quanto a mim, rezar em conjunto com lúcido conhecimento sobre quem nos rodeia, dá vontade de fazer expelir os miolos. Só o facto de as mulheres não poderem ser ordenadas e aos padres não ser permitido o casamento, oh, explica quanto a liderança religiosa sub reptícia e fundamentalmente pretende: irresponsabilidade e domínio, que é ao fim e ao cabo o labéu da santidade.
------Em quase ridícula alusão, na inicial simplicidade do busílis, a mãe diz para o filhote: - Vá, não ponhas aí a mãozinha. E o miúdo, de esplêndida luz nos olhitos, zás, lá vai a mão... A mãe é a religiosa e o miúdo o político. A mãe que desvia o filho de asneirar sem que ele dê por isso transmite o princípio ideal de começar a vida.

27.01.2008 - Nº. 12 = PARA VOCÊ, AMIGA, DO OUTRO LADO DO MAR...

BÍBLIA À DATA


De tudo um pouco, Amiga, se depara
Aos que sonham amor de alma singela
Desde do esplendor da luz mais rara
À escuridão que há-de enegrecê-la.

De tudo um pouco, oh, à Eva bela
Acontece e haverá de suceder...
O bem e o mal são ambos filhos dela
E é sempre Abel o primeiro a ceder.

As maçãzinhas d'ouro... Estás a ver?!
São fruto da desvairada tentação
Que enraiveceu Caim, o fratricida...

E a nós, Amiga, importa não saber
Quanto resta da chama da ilusão
Que ilumina em paz a nossa vida!...




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